Tendências da ANS para 2026: o que muda na fiscalização, nos dados e no cuidado assistencial
- Alessandra Calisto Piloto

- há 5 minutos
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As movimentações mais recentes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam que 2026 não será apenas mais um ano regulatório. Trata-se de uma virada estrutural na forma como a Agência fiscaliza, coleta dados, avalia desempenho e induz comportamentos no setor.
Para operadoras, hospitais, clínicas e demais instituições de saúde, acompanhar essas tendências deixou de ser uma atividade acessória e passou a ser parte central da estratégia de sustentabilidade, governança e compliance.
A seguir, reunimos os principais eixos que já se desenham a partir das últimas reuniões da ANS — e o que, na prática, gestores precisam começar a ajustar agora.
1. Um novo modelo de fiscalização: menos reação, mais indução de conduta
A partir de 1º de maio de 2026, encerra-se o prazo de vacatio legis para a adaptação ao novo modelo de fiscalização responsiva da ANS.
Na prática, isso significa que a Agência deixa de atuar prioritariamente de forma reativa (após a infração) e passa a adotar um modelo indutor, orientado por dados, histórico de comportamento e correção de processos internos.
O foco deixa de ser apenas punir e passa a ser:
Reduzir reclamações na origem
Corrigir falhas estruturais
Estimular boas práticas assistenciais e administrativas
Para instituições de saúde, isso representa uma mudança importante: não basta estar “em dia” documentalmente. A ANS passará a avaliar coerência entre processos, resultados assistenciais, reclamações e indicadores.
Programas de compliance genéricos e sem relação com as demais áreas das operadoras e seguradoras tendem a perder efetividade nesse novo cenário.
2. Fim do SIP e consolidação do TISS como base única de dados
Outro ponto crítico para 2026 é a descontinuidade do Sistema de Informação de Produtos (SIP) e a consolidação do Padrão TISS como principal — e possivelmente única — fonte de dados assistenciais da saúde suplementar.
Essa transição marca uma virada tecnológica e regulatória relevante:
A produção assistencial passa a ser monitorada com maior granularidade
O uso de tecnologias incorporadas no Rol será acompanhado de forma mais precisa
Inconsistências entre faturamento, assistência e dados enviados tendem a ficar mais evidentes
Para prestadores e operadoras, isso exige:
Revisão de fluxos de registro assistencial
Alinhamento entre áreas clínica, faturamento e TI
Maior atenção à qualidade e integridade dos dados enviados
Erros que antes “passavam” por assimetria de informação tendem a ser identificados mais rapidamente.
3. IDSS 2026: prevenção, APS e cuidado contínuo no centro da regulação
As novas fichas técnicas do IDSS (ano-base 2026) deixam claro o direcionamento da ANS: menos foco no evento agudo e mais foco no cuidado contínuo e preventivo.
Entre os destaques:
Elevação das metas de consultas com médicos generalistas
Fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS)
Incentivo ao acompanhamento de pacientes crônicos
Estímulo a práticas preventivas em saúde bucal
Bonificação para operadoras com boas práticas em oncologia
Essa mudança dialoga diretamente com o envelhecimento populacional e com a necessidade de controlar custos sem comprometer desfechos clínicos.
Para instituições que ainda operam sob lógica puramente reativa, o desafio será grande: protocolos, registros e integração assistencial passam a ter impacto direto em avaliação regulatória e reputacional.
4. Sustentabilidade, tecnologias de alto custo e negociação de preços
A incorporação de tecnologias de alto custo continuará no centro da agenda regulatória em 2026, mas com uma diferença importante: a ANS tende a avançar em mecanismos formais de negociação de preços e descontos.
O precedente aberto em 2025 com o medicamento Dupilumabe, por meio de Termo de Compromisso com a indústria, sinaliza:
Maior exigência de sustentabilidade financeira
Busca por previsibilidade regulatória
Tentativa de equilibrar acesso, custo e envelhecimento da carteira
Para operadoras e prestadores, isso reforça a necessidade de:
Entender impactos econômicos reais das incorporações
Avaliar contratos, fluxos de cobrança e cobertura
Antecipar efeitos no preço, na sinistralidade e na assistência
Decisões regulatórias passam a exigir leitura integrada entre regulação, finanças e compliance.
5. Integração de dados e gestão assistencial coordenada
Outro eixo central para 2026 será a interoperabilidade de dados com o Ministério da Saúde, especialmente via RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde).
O objetivo da ANS é mapear de forma mais precisa:
Perfil epidemiológico dos beneficiários
Padrões de uso da rede
Gargalos assistenciais e desperdícios
Nesse contexto, a coordenação do cuidado pela APS surge como estratégia prioritária para:
Reduzir uso indevido de pronto-atendimentos
Evitar duplicidade de exames
Melhorar desfechos clínicos com menor custo sistêmico
Instituições que não investirem em integração assistencial e governança de dados tendem a ficar para trás.
O que tudo isso revela para gestores da saúde?
As tendências da ANS para 2026 apontam para um cenário claro: mais dados, mais rastreabilidade, mais exigência de coerência entre discurso, processo e resultado.
Isso aumenta a complexidade da gestão e, ao mesmo tempo, expõe fragilidades que muitas instituições ainda não conseguem enxergar sozinhas.
É aqui que o Diagnóstico e Avaliação de Riscos se torna estratégico:
Mapeamento de riscos regulatórios, jurídicos e operacionais
Avaliação de aderência às normas da ANS, LGPD, CFM e Vigilância Sanitária
Identificação de pontos frágeis que podem gerar autuações, glosas, judicialização ou danos reputacionais
Em um ambiente regulatório cada vez mais orientado por dados, não saber onde estão os riscos é, por si só, um risco elevado.
Se sua instituição ainda não avaliou como essas mudanças impactam seus processos, precificação, assistência e governança, talvez este seja o momento de olhar para dentro — com método, critério e apoio especializado.


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